quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A resistência


Resistência

1-Introdução
2- Histórico e compreensão das resistências.
3- Tipos, fontes e identificação das resistências.
4- Definição, conceitos e o manejo com a resistência.5- Fragmentos da obra de Freud sobre resistência.
5.1- O processo de formação da resistência.
5.2- Resistência – Sintomas e repressão.
5.3- Resistência e anticatexia.
6- Uma visão kleiniana sobre resistência.
7- Um outro viés sobre resistência - de Freud a Lacan.

1-INTRODUÇÃO.A resistência implica todas as forças dentro do paciente que se opõem aos procedimentos e processos do trabalho psicanalítico. Em maior ou menor grau, ela está presente desde o começo até o fim do tratamento. As resistências defendem o “status quo” da neurose do paciente. As resistências se opõem ao analista, ao trabalho analítico e ao ego racional do paciente. A resistência é um conceito operacional, não foi inventada recentemente pela análise. A situação analítica se transforma na arena em que as resistências se acabam revelando.As resistências são repetições de todas as operações defensivas utilizadas pelo paciente em sua vida passada. Todas as variações de fenômenos psíquicos podem ser utilizados objetivando a resistência, mas, qualquer que seja sua fonte, a resistência age através do ego do paciente. Embora alguns aspectos de uma resistência possam ser conscientes, uma parte fundamental é realizada pelo ego inconsciente.A terapia psicanalítica se caracteriza pela análise sistemática e completa das resistências. É trabalho do analista descobrir como o paciente resiste, a que está ele resistindo e por que ele age assim. A causa imediata de uma resistência é sempre evitar algum afeto doloroso como a ansiedade, culpa ou vergonha. Por trás deste motivo iremos encontrar um impulso instintual que disparou o afeto doloroso. No final das contas, descobrir-se-á que é o medo de um estado traumático que a resistência está tentando evitar.Desde os primórdios da psicanálise, o fenômeno resistência tem sido exaustivamente estudado em sua teoria e técnica, mas nem por isso, na atualidade, perdeu em significação e relevância. Pelo contrário, ele continua sendo considerado a pedra angular da prática analítica e, cada vez mais, os autores prosseguem estudando-o sob renovados vértices de abordagem e conceitualização.Na qualidade de conceito clínico, a concepção de resistência surgiu quando Freud discutiu as suas primeiras tentativas de fazer vir à tona as lembranças “esquecidas” de suas pacientes histéricas. Isto data de antes do desenvolvimento da técnica da associação livre, quando ele ainda empregava a hipnose, e a sua recomendação técnica era no sentido de insistência (por parte do psicanalista) como o contrário da resistência (por parte do paciente).Este método de coerção associativa empregada por Freud incluía uma pressão de ordem física que ele próprio procedia e recomendava como “colocando a mão na testa do paciente, ou lhe tomando a cabeça entre minhas duas mãos” a fim de conseguir a recordação e verbalização dos conflitos passados.2-HISTÓRICO E COMPREENSÃO DAS RESISTÊNCIAS.Freud empregou o termo resistência, pela primeira vez, ao se referir a Elisabeth Von R. (1893), com a palavra original “widerstand”, sendo que em alemão “wider” significa “contra”, como uma oposição ativa. Até então a resistência era considerada exclusivamente como um obstáculo à análise, correspondendo sua força à quantidade de energia com que as idéias tinham sido reprimidas e expulsas de suas associações.Freud escreveu na conferência XIX - Resistência e Repressão, “A resistência dos neuróticos à remoção de seus sintomas tornou-se a base do ponto de vista dinâmico das neuroses. Inicialmente, Breuer e eu empreendíamos a psicoterapia por meio da hipnose; a primeira paciente de Breuer foi totalmente tratada sob influência hipnótica, e, no início, eu o segui neste procedimento. Admito que, naquela época, o trabalho avançava mais fácil e satisfatoriamente, e também em muito menos tempo. Os resultados eram, porém, incertos e não duradouros, e por essa razão finalmente abandonei a hipnose. E então compreendi que não se tornaria possível a compreensão da dinâmica destas doenças enquanto fosse empregada a hipnose. Este estado era justamente capaz de subtrair à percepção do médico [psicanalista] a existência da resistência. Ele fazia recuar a resistência, tornando uma determinada área livre para o trabalho analítico e represava-a nas fronteiras desta área sob uma tal forma, que se tornava impenetrável, do mesmo modo como a dúvida age na neurose obsessiva. Por esse motivo, tenho podido declarar que a psicanálise propriamente dita começou quando dispensei o auxílio da hipnose”.O termo “resistência”, por longo tempo, foi empregado com uma conotação de juízo pejorativo. A própria terminologia utilizada para caracterizá-la, em épocas passadas (de certa forma, ainda persistindo no presente), era impregnada de expressões típicas de ações militares, como se o trabalho analítico fosse uma beligerância do paciente contra o analista e vice-versa. Em A interpretação dos sonhos (1900), os conceitos de resistência e de censura estão intimamente relacionados: a “censura” é para os sonhos aquilo que a “resistência” é para a associação livre. Neste trabalho, em suas considerações sobre o esquecimento dos sonhos, Freud deixou postulado que uma das regras da psicanálise é que tudo o que interrompe o progresso do trabalho psicanalítico é uma resistência.Aos poucos, com a tática de ir da periferia em direção à profundidade, Freud foi entendendo que o reprimido mais do que um corpo estranho era algo como um “infiltrado”. Assim, ele começa a deixar claro que a resistência não era dirigida somente à recordação das lembranças penosas, mas também contra a percepção de impulsos inaceitáveis, de natureza sexual, que surgem distorcidos. Com isso, Freud conclui que o fenômeno resistencial não era algo que surgia de tempos em tempos na análise, mas sim que ele está permanentemente presente.Muitos outros autores, contemporâneos de/ou posteriores a ele, trouxeram importantes contribuições ao estudo das resistências, como são, entre tantos outros: Ferenczi (1918) apontou para o fato de que a própria regra fundamental da livre associação de idéias podia ser usada para fins resistenciais; Abraham (1919) descreveu com maestria aspectos ainda vigentes das resistências crônicas de natureza narcisística; W. Reich (1933) insistia no fato de que o trabalho primordial do psicanalista, de início, deveria ser a remoção da “couraça caracterológica” formada do tipo de resistência que ele denominou “resistência de caráter”; J. Rivière (1936) fez um importante estudo sobre as defesas maníacas na gênese da RTN, como uma forma resistencial de negação das ansiedades depressivas; Anna Freud (1936), seguindo os esboços do pai, foi a primeira a fazer uma clara sistematização das defesas que o ego utiliza como resistências, demonstrando que essas não são apenas obstáculos ao tratamento, mas são também importantes fontes de informação sobre as funções do ego em geral. M.Klein, desde 1920, com os seus conhecidos estudos sobre o psiquismo primitivo e a análise com crianças, propiciou uma compreensão bastante mais clara acerca dos arcaicos recursos defensivos que o ego utiliza como movimentos resistenciais; Rosenfeld (1965) aprofundou o estudo das resistências em pacientes de personalidade narcisística, não psicóticos, nos quais um “self idealizado”, patológico e de gênese precoce obriga o indivíduo a um boicote e a uma permanente resistência contra o aparecimento de genuínas necessidades da parte infantil dependente; Bion, embora não tenha produzido nenhum artigo explicitamente sobre resistências, deixou um importante legado sobre este tema, notadamente pelo seu enfoque da vincularidade analítica. Lacan, que sempre pregou um “retorno a Freud”, tem extraído uma significação especial para a compreensão de algumas formas de resistência nas terapias psicanalíticas. Sua formulação básica fica baseada no fato de que o desejo da criança (paciente) é o de ser desejado pelo Outro (pais no passado; analista, no presente).Em outras palavras, a criança, para garantir o amor dos pais, pode ter aprendido, desde sempre, a adivinhar e a cumprir as expectativas ideais dos mesmos; logo, o seu desejo confunde-se como sendo o “desejo do outro”. A não ser assim, a criança de ontem – nosso analisando de hoje – correria o grave risco de perder o amor do superego e do objeto externo, sendo que isso acontece, sobrevém uma reação do tipo de protesto, desesperança e retraimento, nos mesmos moldes que as crianças, estudadas por Spitz (1945), que tiveram abandonos prematuros. É evidente que a reprodução disso tudo no campo analítico configura-se sob a forma de poderosas resistências inconscientes, como, por exemplo, a de um estado mental de desistência. A evolução do conceito de resistência, na prática analítica, sofreu uma profunda transformação, desde os tempos pioneiros em que ela era considerada unicamente como um obstáculo de surgimento inconveniente, até os dias de hoje, quando, embora se reconheça a existência de resistências que obstruem totalmente o curso exitoso de uma análise, na grande maioria das vezes o aparecimento das resistências no processo analítico é muito bem-vindo, porquanto elas representam, com fidelidade, a forma de como o indivíduo defende-se e resiste no cotidiano de sua vida.Assim, de modo genérico, a resistência no analisando é conceituada como a resultante da forças dentro dele, que se opõem ao analista, ou aos processos e procedimentos à análise, isto é, que obstaculizam as funções de recordar, associar, elaborar, bem como o desejo de mudar. Nessa perspectiva, continua vigente o postulado de Anna Freud (1936) de que a análise das resistências não se distingue da análise das defesas do ego, ou seja, da “permanente blindagem do caráter”.3- TIPOS, FONTES E IDENTIFICAÇÃO DAS RESISTÊNCIAS.Freud descreveu os tipos e fontes das resistências da seguinte maneira: “Não se deve supor que essas correções nos proporcionem um levantamento completo de todas as espécies de resistência encontradas na análise. A investigação ulterior do assunto revela que o analista tem de combater nada menos que cinco espécies de resistência, que emanam de três direções — o ego, o id e o superego. O ego é a fonte de três, cada uma diferindo em sua natureza dinâmica. A primeira dessas três resistências do ego é a resistência da repressão. A seguir vem a resistência da transferência, que é da mesma natureza, mas que tem efeitos diferentes e muito mais claros na análise, visto que consegue estabelecer uma relação com a situação analítica ou com o próprio analista, reanimando assim uma repressão que deve somente ser relembrada. A terceira resistência, embora também uma resistência do ego, é de natureza inteiramente diferente. Ela advém do ganho proveniente da doença e se baseia numa assimilação do sintoma no ego. Representa uma não disposição de renunciar a qualquer satisfação ou alívio que tenha sido obtido. A quarta variedade, que decorre do id, é a resistência que, necessita de ‘elaboração’. A quinta, proveniente do superego e a última a ser descoberta, é também a mais obscura, embora nem sempre a menos poderosa. Parece originar-se do sentimento de culpa ou da necessidade de punição, opondo-se a todo movimento no sentido do êxito, inclusive, portanto, à recuperação do próprio paciente pela análise”.Freud aprofundou bastante o estudo sobre resistências em “Inibição, sintoma e ansiedade” (1926), quando, utilizando a hipótese estrutural, descreveu cinco tipos e três fontes das mesmas. Os tipos derivados da fonte do ego eram:a) Resistência de repressão: consiste na repressão que o ego faz, de toda percepção que cause algum sofrimento.b) De transferência: a paciente manifesta uma resistência contra a emergência de uma transferência “negativa”, ou “sexual”, com o seu analista. c) De ganho secundário: pelo fato de que a própria doença concede um benefício a certos pacientes, como histéricos, personalidades imaturas, e aqueles que estão pleiteando alguma forma de aposentadoria por motivo de doença, essas resistências são muito difíceis de abordar, eis que egossintônicas.d) As resistências provindas do id: Freud as considerava como ligadas à “compulsão à repetição” e que, juntamente com uma “adesividade da libido”, promovem uma resistência contra mudanças. e) A resistência oriunda do superego, a mais difícil de ser trabalhada, segundo Freud, por causa dos sentimentos de culpa que exigem punição.No clássico “Análise Terminável e Interminável” (1937), Freud introduz alguns novos postulados teórico - técnicos, e creio que se pode dizer que aí ele formula um sexto tipo de resistência: a que é provinda do ego contra o próprio ego: “em certos casos, o ego considera a própria cura como um novo perigo”. Neste mesmo trabalho de 1937, Freud aporta outras importantes contribuições sobre resistências, como são as seguintes: o conceito da Reação Terapêutica Negativa (RTN) como sendo aderido ao instinto de morte; a valorização do papel da contratransferência, sendo que ele aponta que a resistência do analisando pode ser causada pelos “erros do analista”, a observação de que a resistência no homem se deve ao medo dos desejos passivo-femininos em relação a outros homens, enquanto a resistência das mulheres deve-se em grande parte à “inveja do pênis”; e Freud também alude ao surgimento de uma “resistência contra a revelação das resistências”.A resistência se manifesta clinicamente muitas vezes de maneira complexa ou sutil. Podemos identificar atitudes de resistência como, por exemplo:a) No paciente silencioso, de uma forma consciente ou inconsciente, o paciente se nega a transmitir seus pensamentos, desta forma, atentar para a comunicação não verbal. b) O discurso intelectualizado é muito racional buscando um isolamento em alguns casos para resistir a algum afeto.c) Uma postura fixa, intranqüila, movimentos repentinos.d) Se fixa num determinado assunto, num tempo, (passado ou presente), em trivialidades, em assuntos externos, para evitar uma introspecção. Evita determinados temas (sexuais, agressivos). Muitas vezes, ao invés de usar sua verbalização para comunicar, usa para confundir.e) Mostra determinado ritual, como a rigidez no horário, traz anotações, começa a sessão de uma mesma forma ou com assuntos já decorados.f) A maneira falar é muito técnico, racional, formal. Evita certas palavras pelo seu sinônimo. Fala muito enfaticamente sobre algo. Fala por subentendidos e enigmas, fazendo da análise um jogo de adivinhação. Já outros transformam a sessão em polêmica, como se a análise fosse um jogo de opiniões.4- DEFINIÇÃO, CONCEITOS E O MANEJO COM A RESISTÊNCIA.É toda e qualquer força interna do paciente que se opõe ao processo terapêutico. É um reerguimento das defesas do paciente. As pessoas, no desenvolvimento de seu Ego, frente às vicissitudes inerentes à sua socialização e aprendizado de vida, constroem mecanismos de defesas normais, para que suas pulsões possam se manifestar, porém de uma maneira adequada, dentro de um padrão de ordem moral e social. O complicador é quando estes mecanismos de defesas, devido a traumas psicológicos excessivos (positivos ou negativos), são construídos e atuados, de uma forma exacerbada, aos moldes de um quimioterápico anticancerígeno que, em doses excessivas matam, além das células cancerígenas, também as células normais, e conseqüentemente a pessoa.Podemos dizer que as forças resistenciais que se erguem no “setting” analítico, são as mesmas forças dos mecanismos de defesas normais e patológicas, que o indivíduo usa no seu cotidiano para manter sua sobrevivência. As resistências são a manutenção do “status quo” que com tanto sacrifício, o paciente montou, no transcorrer de seu desenvolvimento. O principal motivo da resistência é a de evitar um “sofrimento”, ou seja, de passar por tudo aquilo, pelo qual ele mantém reprimido.São forças internas, inconscientes ou conscientes, do analisando que se opõe ao analista, ao processo, e aos procedimentos da análise, obstaculizando a função de recordar, associar, elaborar, bem como o desejo de mudar. Ao contrário, de ser um obstáculo indesejável, é sempre bem vinda, porquanto representa a forma de como o indivíduo defende-se e resiste, no cotidiano de sua vida, e compreendendo o analista, a este “modus operandis” de se defender, pode ele, demonstrar ao paciente como que ele construiu suas defesas, “como que ele funciona”.Quanto mais frágil o ego do paciente, mais forte o é para resistir. Em pacientes mais regredidos, estes opõem sérias resistências às mudanças, e desejam manter as coisas como elas estão, não porque não desejam curar-se, mas é que não acreditam nas melhoras, ou que as mereçam, ou porque correm o “sério risco” de voltar a sentir as dolorosas experiências passadas, (traição, humilhação). “Seu objetivo de vida é para sobreviver e não para viver”.Por isso enquanto houver “re-sistência” (no sentido de re= voltar e sistência= existir), a análise flui bem, porém quando a forma de resistência é a de “de-sistência” (de ser), ou seja o indivíduo não tem desejo para mais nada na vida, o único desejo seu, é o não ter desejo (que podem representar os suicidas em potencial). Sempre haverá de existir resistência do início ao fim da análise. Para se interpretar a resistência, deve-se primeiro, demonstrá-la e esclarecê-las.O paciente, segundo Bion, mantém com o analista, um “acordo manifesto” e um “desacordo latente”. Aparentemente ele é assíduo, colaborador, gentil, que concorda com o analista (aparentemente aceitando as interpretações), porém no fundo, ele as desvitaliza, achando-as não importantes, entra por um ouvido e sai pelo outro, e de uma maneira sutil, sem demonstrar contradição vai impondo e mantendo suas próprias opiniões, sem aceitar as do analista.Muitas vezes conscientemente por vergonha ou medo de ser rejeitado pelo analista, escondem algum assunto que acham, vão “desonrá-lo” perante o analista, querem manter uma imagem positiva diante do analista, e para fugir do assunto passam a falar sobre trivialidades.Desta forma, muitas vezes o analista nota que o paciente tem algo que não quer dizer, e que mantém por muito tempo, um segredo consciente. O motivo pelo qual detectado, que o paciente está a esconder algo, e de sempre apontar este fato, é que um determinado segredo, funciona como um ímã, para outros segredos, recordações, e impulsos, bloqueando o livre curso da análise.Quando o paciente contar o “segredo”, sentirá um alívio e quando perceber que a reação do analista, independente de qual tenha sido o fato, foi de total naturalidade, passa a contar coisas que eram difíceis de tocar. Logo, sempre devemos tratar o segredo confessado com muito respeito, naturalidade e que merece ser tratado normalmente. Depois de confessado ou analisamos como o paciente se sente ou analisamos o conteúdo do segredo.Os segredos geralmente têm conotação, vergonhosa e repugnante (no modo de ver do paciente), relacionados com secreção, excreção ou atividades sexuais, ou como já dito, de algo que o paciente ache que vai desabonar sua imagem perante o analista. A resistência pode ser consciente, pré-consciente ou inconsciente e pode ser expressa por meio de emoções, atitudes, idéias, impulsos, pensamentos, fantasias ou ações. A resistência em essência, uma força opositora no paciente, agindo contra o progresso da análise, contra o analista e contra os procedimentos e processos analíticos. Já em 1912 Freud havia reconhecido a importância da resistência ao afirmar: “A resistência acompanha o tratamento em todos os seus passos. Toda e qualquer associação, todo o ato da pessoa em tratamento deve contar com a resistência e ela representa um compromisso entre as forças que estão lutando pela recuperação e as forças opositoras”.5-FRAGMENTOS DA OBRA DE FREUD SOBRE RESISTÊNCIA.5.1- O PROCESSO DE FORMAÇÃO DA RESISTÊNCIA.A resistência do paciente apresenta-se sob muitíssimos tipos, extremamente sutis e freqüentemente difíceis de detectar; e mostra mutações cambiantes nas formas em que se manifesta.No tratamento psicanalítico, fazemos uso da mesma técnica da interpretação de sonhos. Instruímos o paciente para se colocar em um estado de auto-observação tranqüila, irrefletida, e nos referir quaisquer percepções internas que venha a ter — sentimentos, pensamentos, lembranças — na ordem em que lhe ocorrem. Ao mesmo tempo, advertimo-lo expressamente a não deixar que algum motivo leve-o a fazer uma seleção entre essas associações ou a excluir alguma dentre elas, seja porque é muito desagradável ou muito indiscreta para ser dita, ou porque é muito banal ou irrelevante, ou que é absurda e não necessita ser dita. Sempre insistimos com o paciente para seguir apenas a superfície de sua consciência e pôr de lado toda crítica sobre aquilo que encontrar, qualquer que seja a forma que esta crítica possa assumir; e asseguramos-lhe que o sucesso do tratamento e, sobretudo sua duração, depende da conscienciosidade com que ele obedece a esta regra técnica fundamental da análise. Já sabemos, da técnica da interpretação de sonhos, que aquelas associações que originam as dúvidas e objeções, são justamente as que invariavelmente contêm o material que leva à descoberta do inconsciente. A primeira coisa que conseguimos ao estabelecer a regra técnica fundamental é que ela se transforma no alvo dos ataques da resistência. O paciente procura, por todos os meios, livrar-se das exigências desta regra. Num momento, declara que não lhe ocorre nenhuma idéia; no momento seguinte, que tantos pensamentos se acumulam dentro de si, que não pode apreender nenhum. Ora constatamos com desgostosa surpresa que o paciente cedeu primeiro a uma e, depois a mais outra objeção crítica, revelada pelas longas pausas que introduz em seus comentários. E logo depois, admite que existe algo que de fato não pode dizer, pois tem vergonha e permite que este motivo prevaleça sobre sua promessa. Ou diz que lhe ocorreu algo, mas que isto se refere a outra pessoa, e não a ele mesmo, e, em vista disso, não há por que referi-lo. Ou ainda, aquilo que agora lhe acudiu à mente é realmente sem importância, excessivamente tolo e sem sentido. E assim continua, com inumeráveis variações e apenas se pode replicar que ‘dizer tudo’ realmente significa ‘dizer tudo’. Dificilmente haver-se-á de encontrar um único paciente que não faça uma tentativa de reservar uma ou outra região para si próprio, de modo a evitar que o tratamento tenha acesso a ela. É uma regular tempestade em copo d’água. No entanto, o paciente está desejoso de argumentar; anseia fazer como que passemos a instruí-lo, ministrar-lhe ensinamentos, contradizê-lo, iniciá-lo na literatura, de modo que possa adquirir mais conhecimentos. Está muito disposto a tornar-se um adepto da psicanálise — com a condição de que a análise poupe a sua pessoa. Mas reconhecemos esta curiosidade como sendo resistência, como manobra tendente a nos desviar de nossas tarefas específicas, e repelimo-la. No caso de um paciente obsessivo, haveremos de esperar táticas de resistências especiais. Freqüentemente, permitirá que a análise prossiga sem empecilhos em seu caminho, de modo que ela possa esclarecer, cada vez melhor, o enigma de sua doença. Começamos a nos admirar, por fim, de este aclaramento não se acompanhar de nenhum efeito prático, nenhuma diminuição dos sintomas. Então conseguimos perceber que a resistência se refugiou dentro da dúvida, que é própria da neurose obsessiva. É como se o paciente dissesse: ‘Sim, está tudo muito bem, muito interessante, e terei muita satisfação em prosseguir ainda mais. Eu mudaria um bocado minha doença, se tudo isto fosse verdade. Mas não acredito, nem um pouco, que seja verdade; e, na medida em que não acredito, não faz qualquer diferença para minha doença.’ As coisas podem continuar assim por longo tempo, até que finalmente a pessoa enfrenta diretamente essa atitude de reserva, e então se fere a batalha decisiva. As resistências intelectuais não são as piores: sempre é possível superá-las. O paciente também sabe, contudo, como erguer resistência sem sair de esquema de referência da análise, e a superação desta situação está entre os problemas técnicos mais difíceis. Em vez de recordar, repete atitudes e impulsos emocionais o início de sua vida, que podem ser utilizados como resistência contra o psicanalista e tratamento, através do que se conhece como ‘transferência’. Se o paciente é um homem, geralmente extrai este material de sua relação com seu pai, em cujo lugar coloca o psicanalista, e dessa forma constrói resistências que surgem a partir de seu esforço de se tornar independente, em si próprio e em sua opinião, a partir de sua ambição, cujo objetivo primeiro consistia em fazer as coisas tão bem como seu pai, ou superá-lo; ou a partir de sua aversão a se endividar, pela segunda vez na vida, com uma carga de gratidão. Assim, às vezes, tem-se a impressão de que o paciente substitui inteiramente sua melhor intenção de pôr um fim à sua doença, pela intenção alternativa de negar que o psicanalista tenha razão, de fazer com que este reconheça sua impotência e de triunfar sobre ele. As mulheres têm um talento de mestre para explorar, na relação com o psicanalista, uma transferência afetuosa, com nuances eróticas, destinada à resistência. Se esta ligação atinge determinado nível, desaparece todo o seu interesse pela situação imediata do tratamento e todas as obrigações que assumiram no início; seu ciúme, que nunca está ausente, e sua irritação ante a inevitável rejeição, embora expressos respeitosamente, não podem deixar de ter como efeito um dano na harmonia entre paciente e analista, e assim inativam uma das mais poderosas forças motrizes da análise. Resistências deste tipo não devem ser condenadas apressadamente. Incluem tanto material importante do passado do paciente e trazem-no à lembrança de forma tão convincente, que elas se tornam os melhores suportes da análise, se uma técnica habilidosa soube dar-lhes o rumo apropriado.Também se pode dizer que aquilo que se mobiliza para lutar contra as modificações que nos esforçamos por efetivar, são traços de caráter, atitudes do ego. Com referências a este aspecto, descobrimos que esses traços de caráter foram formados em conexão com as causas da neurose e como reação contra as exigências desta; e encontramos traços que normalmente não conseguem emergir ou não podem emergir no mesmo grau, e que poderia descrever como latentes. Na verdade, chegamos a compreender, finalmente, que a superação dessas resistências constitui a função essencial da análise e é a única parte do nosso trabalho que nos dá a segurança de havermos conseguido algo com o paciente.Se refletirem também que o paciente transforma todos os eventos casuais, ocorrentes durante a análise, em interferências no tratamento; que ele utiliza, como motivos para afrouxar seus esforços, todo acontecimento perturbador externo à análise, todo comentário feito por uma pessoa ou autoridade, em seu ambiente, hostil à psicanálise, toda doença orgânica eventual ou tudo aquilo que complica sua neurose, e até mesmo, na verdade, toda melhora em seu estado — se considerarem tudo isto, terão obtido uma imagem aproximada, embora ainda incompleta, das formas e dos métodos da resistência; e a luta contra esta resistência faz parte de toda análise.Portanto, temos tido a possibilidade de nos convencer de que, em ocasiões incontáveis no decurso de sua análise, a mesma pessoa abandonará sua atitude crítica e depois a reassumirá. Se estivermos na iminência de trazer-lhe à consciência uma parcela de material inconsciente especialmente desagradável, a pessoa se torna extremamente crítica; pode ter empreendido e aceito muitas coisas previamente, agora, todavia, é simplesmente como se aquelas aquisições tivessem sido anuladas; em seu esforço de se opor, a todo custo, pode oferecer o quadro completo de um imbecil emocional. Se, contudo, conseguimos ajudá-la a superar essa nova resistência, ela recupera sua compreensão interna (insight) e entendimento. Sua faculdade crítica não é, assim, uma função independente a ser respeitada como tal, é o instrumento de suas atitudes emocionais e orienta-se segundo sua resistência. 5.2- RESISTÊNCIA – SINTOMAS E REPRESSÃO.O paciente luta contra a remoção de seus sintomas e o estabelecimento de seus processos mentais? Dizemos a nós mesmos que conseguimos descobrir, aqui, forças poderosas que se opõem a qualquer modificação na condição do paciente; devem ser as mesmas que, no passado, produziram esta condição. Durante a formação de seus sintomas, algo deve ter-se passado, que agora podemos reconstituir a partir de nossas experiências durante a resolução de seus sintomas. Através da observação de Breuer, que há uma precondição para a existência de um sintoma: algum processo mental deve não ter sido conduzido normalmente até seu objetivo normal — que era o objetivo de poder tornar-se consciente. O sintoma é o substituto daquilo que não aconteceu nesse ponto. Agora sabemos em que ponto deve localizar a ação da força que presumimos. Uma violenta oposição deve ter-se iniciado contra o acesso à consciência do processo mental censurável, e, por este motivo, ele permaneceu inconsciente. Por constituir algo inconsciente, teve o poder de construir um sintoma. Esta mesma oposição, durante o tratamento psicanalítico, se insurge, mais uma vez, contra nosso esforço de tornar consciente aquilo que é inconsciente. É isto o que percebemos como resistência. Propusemos dar ao processo patogênico, que é demonstrado pela resistência, o nome de repressão.Devemos, formar idéias mais definidas acerca do processo de repressão. Esta é a precondição da formação dos sintomas; também é, contudo, algo em relação ao qual não encontramos nada semelhante. Tomemos como nosso modelo um impulso, um processo mental que tenta transformar-se em ação. Sabemos que pode ser repelido por aquilo que denominamos rejeição ou condenação. Quando isto acontece, a energia à sua disposição é retirada dele; o impulso torna-se impotente, ainda que possa persistir como lembrança. Todo o processo de chegar a uma decisão referente ao mesmo segue seu curso no âmbito do conhecimento do ego. Passa-se algo muito diverso quando o mesmo impulso está sujeito à repressão. Nesse caso, ele conservaria sua energia e dele não restaria nenhuma recordação; além disso, o processo de repressão seria realizado sem ser percebido pelo ego.Se um processo permaneceu inconsciente, o fato de ser ele mantido afastado da consciência talvez possa ser apenas uma indicação de alguma vicissitude por que passou, e não a vicissitude mesma. A fim de formar uma imagem dessa vicissitude, suponhamos que todo processo mental — devemos admitir uma exceção que mencionaremos numa fase posterior — exista, inicialmente, em um estádio ou fase inconsciente, e que é somente dali que o processo se transporta para a fase consciente, da mesma forma como uma imagem fotográfica começa como negativo e só se torna fotografia após haver-se transformado em positivo. Nem todo negativo transforma-se, contudo, necessariamente em positivo; e não é necessário que todo processo mental inconsciente venha a se tornar consciente.Para qualquer impulso, porém, a vicissitude da repressão consiste em o guarda não lhe permitir passar do sistema do inconsciente para o do pré-consciente. Trata-se do mesmo guarda que vimos a conhecer como resistência, quando tentamos suprimir a repressão por meio do tratamento analítico. O sintoma é um substituto de algo que foi afastado pela repressão. Ao investigar a resistência, constatamos que ela emana de forças do ego, de traços de caráter conhecido e latente. São estes, pois, os responsáveis pela repressão, ou, pelo menos, têm uma participação nela. Os sintomas podem ser adequadamente visualizados, como satisfações substitutivas daquilo que se perde na vida. Sem dúvida, pode-se ainda levantar toda classe de objeções à asserção de que os sintomas neuróticos são substitutos de satisfações sexuais. Em psicanálise, os contrários não importam em contradição. Poderíamos ampliar nossa tese e dizer que os sintomas objetivam ou uma satisfação sexual ou o rechaço da mesma, e que, na totalidade, o caráter positivo de realização de desejo prevalece na histeria e o negativo, ascético, na neurose obsessiva. Se os sintomas podem servir tanto à satisfação sexual como ao seu oposto. 5.3- RESISTÊNCIA E ANTICATEXIA.Importante elemento da teoria da repressão é a opinião de que a repressão não é um fato que ocorre uma vez, mas que exige um dispêndio permanente de energia. Se esse dispêndio viesse a cessar, o impulso reprimido, que está sendo alimentado todo o tempo a partir de suas fontes, na ocasião seguinte fluiria pelos canais dos quais havia sido expulso, e a repressão ou falharia em sua finalidade ou teria de ser repetida um número indefinido de vezes. Assim, é porque os instintos são contínuos em sua natureza que o ego tem de tornar segura sua ação defensiva por um dispêndio permanente de energia. Essa ação empreendida para proteger a repressão é observável no tratamento analítico como resistência. A resistência pressupõe a existência da anticatexia. Uma anticatexia dessa espécie é claramente observada na neurose obsessiva. Ela aparece ali sob a forma de uma alteração do ego, como uma formação reativa no ego, e é efetuada pelo reforço da atitude que é o oposto da tendência instintual que tem de ser reprimida — como, por exemplo, na piedade, na consciência e no asseio. Essas formações reativas de neurose obsessiva são essencialmente exageros dos traços normais do caráter que se desenvolvem durante o período de latência. A presença de uma anticatexia na histeria é muito mais difícil de detectar, embora teoricamente seja igualmente indispensável. Na histeria, também, uma quantidade de alteração do ego através da formação reativa é inegável e em algumas circunstâncias se torna tão acentuada que se força à nossa atenção como o principal sintoma. O conflito devido à ambivalência, por exemplo, é transformado em histeria por esse meio. O ódio do paciente por uma pessoa a quem ele ama é mantido em baixo nível por uma quantidade reduzida de ternura e apreensão da parte dela. Mas a diferença entre as formações reativas na neurose obsessiva e na histeria é que na segunda não têm a universidade de um traço de caráter, mas estão confinadas a relações específicas. Uma histérica, por exemplo, pode ser especialmente afetuosa com seus próprios filhos, os quais no fundo ela odeia; mas por causa disso ela não será mais amorosa, em geral, do que outras mulheres ou mais afetuosa para com outras crianças. A formação reativa da histeria apega-se tenazmente a um objeto específico e jamais se difunde por uma disposição geral do ego, ao passo que o que é característico da neurose obsessiva é precisamente uma difusão dessa espécie — um afrouxamento de relações na escolha de objeto.Há outra espécie de anticatexia, contudo, que parece mais adequada ao caráter peculiar da histeria. Um impulso instintual reprimido pode ser ativado (novamente catexizado) a partir de duas direções: de dentro, através de reforço de suas fontes internas de excitação, e de fora, através da percepção de um objeto que ele deseja. A anticatexia histérica é principalmente dirigida para fora, contra percepções perigosas. Assume a forma de uma espécie especial de vigilância que, por meio de restrições do ego, causa situações a serem evitadas que ocasionariam tais percepções, ou, se de fato ocorrerem consegue afastar delas a atenção do paciente. A resistência tem de ser superada na análise provém do ego, que se apega a suas anticatexias. É difícil para o ego dirigir sua atenção para percepções e idéias que ele então estabeleceu como norma evitar, ou reconhecer como pertencendo a si próprio, impulsos que são o oposto completo daqueles que ele conhece como seus próprios. Nossa luta contra a resistência na análise baseia-se nesse ponto de vista dos fatos. Se a resistência for ela mesma inconsciente, como tão amiúde, acontece devido à sua ligação com o material reprimido, nós a tornamos consciente. Se for consciente, ou quando se tiver tornado consciente, apresentamos argumentos lógicos contra ela; prometemos ao ego recompensas e vantagens se ele abandonar sua resistência. Não pode haver nenhuma dúvida ou erro sobre a existência dessa resistência por parte do ego. Mas temos de perguntar a nós mesmos se ela abrange todo o estado de coisas na análise, pois verificamos que mesmo após o ego haver resolvido abandonar suas resistências ele ainda tem dificuldades em desfazer as repressões; e denominamos o período de ardoroso esforço que se segue, depois de sua louvável decisão, de fase de ‘elaboração’. O fator dinâmico que torna uma elaboração desse tipo necessária e abrangente não está longe para se procurar. Pode ser que depois de a resistência do ego ter sido removida, o poder da compulsão à repetição — a atração exercida pelos protótipos inconscientes sobre o processo instintual reprimido — ainda tenha de ser superado. Nada há a dizer contra descrever esse fator como a resistência do inconsciente. Não há qualquer necessidade de se ficar desestimulado por causa dessas correções. Devem ser bem escolhidas se acrescentarem algo ao nosso conhecimento, e não constituem vergonha alguma para nós, na medida em que antes enriquecem do que invalidam nossos pontos de vista anteriores — limitando algum enunciado, talvez, que era por demais geral ou ampliando alguma idéia que foi muito estreitamente formulada.6- UMA VISÃO KLEINIANA SOBRE RESISTÊNCIA.Klein descreveu a resistência na análise como sendo a manifestação de uma transferência negativa. Em contraste, a psicanálise clássica considerava a resistência como uma repressão da libido. Trata-se de uma diferença decisiva, que dá origem a tipos de interpretação radicalmente diferentes e expectativas de eficácia terapêutica também radicalmente diferente. Na opinião de Klein, a resistência apresentava-se como uma forma de evitar o relacionamento com ela própria ou como uma forma de evitar os jogos com brinquedos:“Minha experiência confirmou minha crença de que, se construo a antipatia, imediatamente como ansiedade e sentimento transferencial negativo e a interpreto como tal em conexão com o material que a criança ao mesmo tempo produz, remontando-o depois de volta ao seu objeto original, qual seja, a mãe, posso imediatamente observar que a ansiedade diminui. Isto se manifesta pelo começo de uma transferência mais positiva e, com esta, de um brincar mais vigoroso. Pela resolução de alguma parte da transferência negativa, obteremos então, tal como acontece com os adultos, um aumento da transferência positiva e esta, de acordo com a ambivalência da infância, será em breve, por sua vez, sucedida por uma reemergência da negativa”. (Klein, 1927). Interpretações desse tipo eram “contra a prática costumeira” (Klein – 1955) e ela entrou em disputa com Anna Freud a respeito do manejo da resistência e da transferência negativa.Klein estudou as inibições no brincar com grandes detalhes e deu-se conta do impacto enorme dos sentimentos agressivos no desenvolvimento da simbolização e, portanto, na totalidade do funcionamento intelectual. Klein demonstrou que o brincar era tão simbólico quanto as palavras, ainda que envolvesse descarga muscular. Dessa maneira, a fantasia não era necessariamente um método de descarga alternativo à ação corporal, como Freud contentara-se em deixá-la ser, mas concomitante profundamente importante, senão a mola mestra, da descarga física de energia. A formação de símbolos é um recurso primário na expressão, tanto interna quanto externa da atividade inconsciente da fantasia, em qualquer momento determinado. A externalização destas fantasias no brincar simbólico e na personificação é impulsada pela necessidade de colocar a certa distância estados internos de perseguição. Klein estava demonstrando, portanto, que os símbolos, como substitutos, constituem uma estratégia defensiva, e que a análise do processo de simbolização é uma análise das defesas.Mediante sua compreensão da personificação dos objetos internos e, eventualmente de partes do ego (identificação projetiva), percebeu que estava lidando com o tipo de defensividade que é adotado pelos psicóticos. A resistência psicótica é um ataque à capacidade que tem a mente de pensar e conhecer (a pulsão epistemofílica), mencionado por Bion (1959) como “ataques aos elos de ligação”. Na teoria da esquizofrenia de Bion, ele descreveu os ataques ao próprio ego, que representavam as experiências que Klein (1946) encarava com sendo os efeitos da pulsão de morte agindo dentro –a sensação de estar-se despedaçando. Bion descreveu particularmente um ataque à percepção da realidade interna. A resistência, igualada à transferência negativa, representava uma manifestação clínica da pulsão de morte. Freud pouco depois da Primeira Guerra Mundial (1920) admitiu a existência da agressão. O conceito veio a mais ou menos se fundir com o de reação terapêutica negativa. A presunção geral tem sido de que, por correta que tenha sido a interpretação que provocou uma reação negativa no paciente, tem de haver uma “mais correta”, que entenderia esta reação negativa. Klein foi das primeiras entre os que consideraram a agressão como sendo pulsional. Entretanto, por enfatizar as fantasias inconscientes, apoiava a visão de Freud de que as pulsões nos seres humanos são extraordinariamente maleáveis. Klein achava que a inevitabilidade da agressão em si não era otimista nem pessimista; cada indivíduo se empenha em sua própria luta pessoal contra seus próprios impulsos agressivos. Freud deu-se conta, para sua consternação, que havia alguns pacientes que reagiam mal às interpretações analíticas: ficavam piores com interpretações boas, antes que melhores. Ele ficou afrontado pelo hábito do “Homem dos Lobos” de produzir “reações negativas” transitórias; todas as vezes que algo havia sido conclusivamente esclarecido, ele tentava contradizer o efeito.(Freud-1917). Várias tentativas foram feitas para compreender a reação:a) Culpa: Freud atribuiu-a à culpa, especialmente à culpa inconsciente, que leva a uma necessidade de punição; o paciente alcança esse castigo sob a forma de padecer de má saúde. b) Pulsão de morte: Em 1924, Freud especulou sobre o papel da pulsão de morte na reação terapêutica negativa.c) Posição depressiva: Riviere (1936) tirou algumas conclusões à luz da posição depressiva de Klein, as quais mostravam a importância das relações objetais envolvidas na culpa inconsciente: um medo de ser responsável pelo dano ou pela morte do objeto bom, especialmente do objeto bom internalizado. Apontou ela que se interpretar a um paciente culpado o que se acha errado com ele, isso o fará sentir-se mais culpado ainda, por estar dessa maneira errado. Advogou ela o equilíbrio entre interpretações das partes más do sel e interpretações das partes boas, ponto de vista endossado por Rosenfeld (1987).d) Inveja: No mesmo ano (1936), Horney argumentou que a reação terapêutica negativa resultava da inveja do analista, isto é, de um desejo de estragar o trabalho deste último. Sob muitos aspectos, isto remonta a um breve artigo da autoria de Abraham (1919), a respeito de pacientes que não podem suportar o trabalho bem-sucedido do analista.7- UM OUTRO VIÉS SOBRE RESISTÊNCIA - DE FREUD A LACAN.Freud escreveu que “A constituição psíquica de um homem que reflete é muito diferente daquela de um homem que observa suas próprias reflexões. Há concentração nos dois casos, mas na reflexão há algo mais: uma crítica. Essa crítica faz eliminar uma parte das idéias surgidas após apercepção. Ela interrompe outras no meio do caminho, impede a passagem; outras, enfim, não chegam nem mesmo a ultrapassar o limite da consciência; elas são recalcadas antes da percepção”. A atitude crítica aparece assim na análise, como uma barreira; ela cessa então, por conseguinte, quando ela for analisada como uma resistência.Se for verdade que o conceito de resistência à análise não pode se unificar, por razões não acidentais ou não contingentes, então o conceito de análise e de análise psicanalítica, o conceito mesmo de a psicanálise terá conhecido o mesmo destino. Só podendo ser determinada, pode-se dizer, na adversidade e com relação àquilo que lhe resiste, a psicanálise não se reunirá nunca na unidade de um conceito ou de uma tarefa. Se não há uma resistência, não há a psicanálise - que se a entenda aqui como um sistema de normas teóricas ou como estatuto das práticas institucionais.Toda resistência supõe uma tensão, e primeiramente uma tensão interna. Mas uma tensão puramente interna sendo impossível trata-se de uma inerência absoluta do outro ou de fora do coração da tensão interna e auto-afetiva. O double bind é [...] o que não dá lugar, enquanto tal, nem à análise nem à síntese, nem à analítica nem à dialética. Ele provoca ao infinito a analítica e a dialética, mas é para lhes resistir absolutamente. Na segunda necessidade devemos, segundo ele, pensar essa resistência como restância [restance] do resto, isto é, de maneira não simplesmente ontológica (nem analítica, nem dialética), pois a restância [restance] do resto não é psicanalítica. A personalidade analisada não é somente o lugar de um segredo, - o segredo do inconsciente; ela é agora percebida como um conjunto que visa a defender o acesso a esse segredo. Esta defesa, isto é, o recalque e sua tradução, a resistência, é um novo segredo. É um mecanismo inconsciente. - A regra fundamental da psicanálise encontra na teoria da resistência seu complemento indispensável e sua verdadeira justificativa. Ao mesmo tempo, a regra fundamental torna-se o instrumento analisador não mais somente de uma investigação clínica, mas ainda de uma dinâmica que se dispõe a tratar o indivíduo, desta vez, não mais somente descobrindo o segredo de sua doença, mas atacando o centro dinâmico de seus conflitos.Lacan dedica a primeira parte de seu seminário 1, Os Escritos Técnicos de Freud, para discutir a questão das resistências. Lacan diz que não pode haver uma "two-body's psychology", ou seja, uma relação analítica sem a intervenção de um terceiro elemento. Esse terceiro elemento é a fala, a linguagem. Sabemos que um analista pode fazer uma interpretação corretíssima e não obter nenhuma resposta se fez esta comunicação num momento inoportuno. Freud percebe, desde o momento em que abandona a hipnose, que alguma coisa no paciente resistia a essa reintegração do passado. É importante, no entanto, compreender que esta reintegração não tem o sentido de revivência ou rememoração. Reintegrar é tomar de volta aquilo que se dispersou. É fazer voltar ao todo as partes que se desligaram. Esse retorno dos elementos inconscientes ao todo da consciência não se opera por simples rememoração. Além disso, em textos iniciais de Freud aparece a idéia de que a análise irá "tornar consciente o que é inconsciente", idéia que não se sustenta posteriormente, quando o inconsciente ganha o estatuto de sistema psíquico, fazendo parte, portanto, de nossa estrutura. Lacan também relê os Estudos sobre a Histeria, primeiro trabalho de Freud que tenta dar conta de uma clínica. Neste texto, Lacan encontra a noção de que a resistência provém do núcleo do recalcado. Haveria uma força de repulsão que se exerce a partir do núcleo do recalcado. Quanto mais nos aproximamos deste núcleo, maior a resistência. Este pensamento faz parte de uma idéia inicial de Freud, que supunha que o inconsciente resiste. No entanto, posteriormente, ele afirma que o inconsciente insiste, na tentativa de se fazer consciente. A resistência provém de outro lugar que, embora não pertença ao sistema inconsciente, também pode ser definido enquanto tal, pois é a parte inconsciente do eu. Ao discutirmos a questão da resistência, aparece também a dúvida sobre o que seria a contratransferência, tema controvertido da psicanálise. Lacan acaba por defini-la como "a função do ego do analista (...) a soma dos preconceitos do analista”. Ao discutir mais longamente sobre a técnica, e também ao elaborar sua teoria dos quatro discursos (seminário 17), Lacan vai definir a posição do analista como sendo a de objeto. Ali, durante a situação analítica, o analista não é nem sujeito, nem eu, é objeto. Contratransferência seria colocar o eu nessa relação, com seus preconceitos e com sua demanda de amor. Por causa disso, não podemos falar que a análise é uma relação de eu a eu (ego a ego), até porque estão presente ali sujeito e objeto, e também a linguagem. Freud nos diz que quando o paciente se cala é, provavelmente, porque lhe ocorre algum pensamento que tem a ver com o analista. Lacan nos aconselha a não fazer perguntas do tipo: você tem alguma idéia que tem a ver comigo? Isto direciona a atenção do paciente e impede o surgimento de algo mais puro. Lacan diz que, neste momento, o paciente pode, de repente, "realizar a presença do analista". É um fenômeno em que o paciente, de repente, percebe que existe ali um outro que o escuta. Lacan acentua o fato de que não podemos colocar a resistência apenas como uma das defesas psíquicas. Ela é, acima de tudo, um fenômeno localizado na experiência analítica. No movimento de revelação do sujeito, aparece a resistência. Se esta resistência for muito forte, surge a transferência. Portanto, a transferência na análise exerce uma função específica. Ela faz com que o inconsciente do paciente se atualize na pessoa do analista. Ao reportar suas associações mais recalcadas à pessoa do analista, o paciente está atualizando o seu inconsciente. Lacan diz que a palavra recalcada é uma "palavra verídica". É a palavra como revelação. "A resistência se produz no momento em que a palavra como revelação não se diz e o sujeito não tem mais saída”. Lacan conclui falando sobre a paradoxal posição do analista, que deve intervir no discurso do sujeito, enunciando ele uma palavra plena ou uma palavra vazia. No caso da palavra vazia, é preciso tentar extrair dela o que há de verídico. No entanto, quando a palavra verídica surge, não é mais do que por um momento. O eu (que é gestaltista, pois se constitui a partir de uma imagem, de uma boa forma), vai tentar tapar este buraco de abertura para o inconsciente, restaurando sua forma anterior. É preciso que o analista aponte esta palavra verdadeira para que o analisando possa continuar elaborando aquilo que surgiu. São duas funções da palavra que aparecem na análise e que se contrapõem, a palavra vazia que tem sua função de comunicação entre o eu e o outro e a palavra verídica, que é a fala do sujeito. O eu, em sua relação com o outro, é portador desta palavra vazia sendo que, na análise, sua função é a do desconhecimento. Não há possibilidade de êxito quando se comunica ao eu do paciente aquilo que ainda está sob forte resistência. O único caminho possível é seguir pelas trilhas das associações, para que o sujeito possa se manifestar.

0 comentários:

Postar um comentário